sábado, 31 de janeiro de 2009

Trazes nos teus lábios

Trazes nos teus lábios o sabor do licor dos Deuses
Com ele me embriagas e abres as portas do Paraíso
Desmanchas a minha vontade mais secreta
E baralhas os meus segredos mal revelados
Adoras saber que me sinto perdido como um menino
E que não temo o escuro mesmo que ele se torne desejável
Sentes-te a dona do meu tempo e do meu espaço
Mas quem te disse que eu não gostava?
Quem te falou da Primavera, depois do Verão?
Não invertas o tempo, deixa que ele faça a sua parte
E esmaga-me com o teu silêncio
Porque só ele é capaz de me ferir e provocar dores
E eu aceito-as. Não as renego. Não me afasto delas
Mostra-me a tua coragem se é que não a perdeste
Precisavas de juntar forças para me dizer que sou tudo e nada para ti
Mas não foste capaz. Porque sabes que o meu dia não começa
Quando o sol se vai embora e o a lua não nasce
Abre-te para mim. Faz de mim o teu fiel de balança
Deixa-me equilibrar os teus sentidos
E depois vai embora. Já não fazes falta
Porque eu sou um caso perdido sem a opção de ser encontrado

És linda de todas as maneiras

És linda de todas as maneiras.
Até a chorar no escuro do cinema.
E quando sinto a tua emoção,
A passar das tuas mãos para as minhas,
percebo o quanto me sinto bem ao teu lado
Mesmo ali, naquela sala de cinema.
A olhar para a tela.
Onde a vida de alguém,
começa do fim para o principio.
Onde o tempo anda para trás
Quem me dera.
Voltaria ao tempo de te encontrar.
E ter-te só para mim. Apenas para mim
És linda de todas as maneiras

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Deitei fora

Deitei fora os papéis que me mandaste.
Nenhum me servia, nenhum me fazia falta.
O que me faz falta é a tua presença
o teu olhar, a tua forma de ser.
E essa já não a tenho
Perdi como quem perde a vontade de viver
E fiquei perdido no meio de uma solidão voluntária
A mesma solidão a que me obriguei sem saber
Estranhos sentimentos de vontade que me fazem mal

Olho nos teus olhos

Olho nos teus olhos
E neles vejo a planície que nunca acaba
O mar que não tem fim
A montanha que não tem cume

Olho nos teus olhos
E vejo todas as flores dos campos
A frescura da madrugada
E a água cristalina da fonte

Olho nos teus olhos
E vejo o dia de amanhã
A esperança que nunca morre
A vontade de viver

Olho nos teus olhos
E vejo os olhos do mundo
Os olhos das pessoas de bem
Vejo os olhos doces de uma criança

Olho nos teus olhos
E vejo os meus reflectidos
Vejo a alma que não se esgota
Vejo a vontade que persiste

Olho nos teus olhos
E vejo-te a ti
Simplesmente tu
E é tão bom ver-te assim

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Rodeado de gente

Rodeado de gente
sinto-me só.
Não os escuto.
Não lhe presto atenção.
As suas vozes chegam mudas
aos meu ouvido.
Sinto-me perdido no meio
da multidão.
Sinto-me esquecido no meio
do turbilhão.
E vagueio pelas ruas da vida
Onde há gente perdida
Onde há gente esquecida.
Que faço eu aqui afinal?
Quem me indicou este caminho?
Quem partilha comigo esta dor?
A dor de estar sozinho
Acompanhado de tanta gente
Cada um, é aquilo que sente.

Fecha os olhos

Fecha os olhos
E sente a minha mão na tua pele
E na tua boca
Nasce um beijo que me sabe a mel

No teu rosto
Corre um fio doce de ternura
Na tua pele
Não há lugar para tanta amargura

Fecha os olhos
E deixa-te levar pelos momentos
E com os teus dedos
Separa esse mar de sentimentos

No teu peito
Há uma vontade crua de esperança
E no teu ventre
Há o fermento bom de uma criança

Fecha os olhos
E dorme no silêncio do encanto
E nos teus sonhos
Dás-me o beijo que te peço tanto

Nos teus braços
Faço a minha festa prometida
Se te quero
É porque és mulher da minha vida

Junto ao mar

Junto ao mar recebo contigo a Lua.
Ambos sabemos que ela vai nascer, crescer e depois partir.
No meio deste tempo vou-me entregar a ti,
só a ti.
A Lua será testemunha dessa entrega
e nela será reflectido todo o amor que sinto.
Talvez ela o espalhe pelo resto do mundo.
Talvez ela o queria só para si
E a Lua alumiará o teu corpo com o seu brilho,
para que eu o possa percorrer com as pontas dos meus dedos.
E com ela te darei tudo o que tenho para dar
até à última gota de suor.
Até à última faísca de paixão.
E quando ela quiser partir
ficarei ao teu lado
a ver-te dormir.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Culpa

Sinto-me preso
Não me consigo soltar
Já não falo
Já não me queixo
Estou absorvido pelo medo
Esmagado pela indecisão
Atropelado pelo preconceito
E não sei o que fazer
O que dizer
Para onde ir
A quem acudir?
Sinto-me assim
Preso ao fim
Preso às ideias
Que me ferem
Que me sopram
Segredos vazios
E murmúrios ruidosos
Estou entre o tudo e o nada
Entre o medo e o desespero
Não tenho culpa de não ser feliz.
Mas tenho culpa de não ir à procura.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Imaginei

Imaginei o céu e a terra na palma da mão
E nas suas linhas tracei os rios e os caminhos
que me levam até ti.
Nos meus dedos deixei à solta a força da vontade
a mesma com que imaginei as florestas e as árvores
que cobrem a superfície da minha alma

Imaginei os oceanos e os desertos cheios de vida
e neles deixei repousar a mais profunda das verdades
Flores sem pétalas caíram sobre os meus ombros
e neles repousaram até chegar a próxima Primavera
No meu Mundo não há palavras fechadas
nem segredos mal revelados

Imaginei homens e mulheres de costas voltadas
Habituados a ignorar a dura realidade do tempo
à espera da hora que nunca chega
E do tempo que nunca pára
porque há mais morte para além da vida
e mais vida para além da morte

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Dois corpos e quase nada

São dois corpos já molhados
Numa cama aconchegados
E em gestos retorcidos
Estão dois lábios já unidos

E no momento mais secreto
Há um grito mais concreto
Há um morrer de paixão
Ao sabor de uma ilusão

E na loucura dos desejos
Já não passo sem teus beijos
Quando fores adormecer
Fico em silêncio para ver

E se não falta a coragem
Vou guardar a tua imagem
Faço de contas que não sei
Todo os beijo que te dei

E fica o eterno momento
Que não parte com o vento
Há uma chuva mal caída
Sobre a tua pele já despida

É numa cama devassada
Dois corpos e quase nada
O amor é uma canção
Que se canta com o coração

Navegar

Navego à vista no mar da saudade
No convés, marinheiros embriagados
Soluçam no silêncio da madrugada

Na minha frente abre-se o caminho
Por entre o espumar das ondas
Sem que isso pudesse alterar o meu rumo

Não sei onde vou acostar
Que porto ou destino nos espera
Talvez nada nem ninguém nos queira

Navego à vista no mar da saudade
E levo comigo a pouca fortuna
De não saber para onde vou

Menina dos meus olhos

Menina dos meus olhos
És o sol, que me ilumina

És alecrim aos molhos
Tens na pele, a frescura fina

Menina do meu encanto
Tens o vento contigo a correr

Para ti quero tanto
És a causa do meu viver

Menina do meu tempo
Faz de mim, o teu melhor amigo

Solta o cabelo ao vento
Dá-me a mão, vem passear comigo

Menina de ternura
Quero agora ver-te crescer

És a fonte de água pura
És a força de quem quer viver

(para a minha filha)

Recebo a madrugada

Recebo a madrugada no silêncio do quarto
e ao meu lado está o teu corpo preenchendo os lençóis.
Os mesmo lençóis que devolveram à noite a vontade
de te ter de novo como se fosse a primeira vez

Quieta e segura mergulhas nos sonhos que te levam
mais depressa para longe, onde tudo parece irreal.
Agora que estás perto de despertar, inquietas-me o pensamento
e fazes nascer em mim a derradeira das vontades

Ganhas-te a corrida ao sol e os teus olhos soltam a luz
que um dia me prenderam como duas grilhetas sem chave
O sorriso que os teus lábios soltam, o teu primeiro sorriso
é para mim. Terei feito assim tanto para o merecer?

Quando a ponta dos teus dedos encostam na minha pele
solta-se em mim o suspiro dos inocentes
Daqueles que nada pedem e a tudo se obrigam
E devolvo-te o sorriso, o mesmo sorriso de sempre.

E quando danças nua

Alertei o Sol para ele ter cuidado
Com os conselhos que a Lua dá

Dei um grito mudo e incomodado
Numa noite tão perdida como esta está

Avisei os céus que o teu sorriso
É sempre franco mesmo quando ele é dado assim

Dei um beijo longo na tua boca
Fiz um filme duma história que fala de mim

E quando danças nua
O teu corpo a voar
Eu vou até à Lua
O Sol pode esperar

Amarrei as cordas nesse porto ali perdido
É tão comprido que me leva a ti

Adormeci nessa cama de mil formas
Tive um sonho mal sonhado que acabou em mim

Separei os meus medos e os segredos
Que me fazem despertar já em tentação

Haja vento e tempestades de Inverno
Nesse mar a minha vida é uma ilusão

O vento é meu amigo

Recolhi todas as formas e cores
Que o vento deixou ficar na sua passagem

Guardei-as todas para um dia te poder oferecer
E dizer, que o vento nem sempre deixa rasto

Só quando sabe que as suas formas e cores
Podem servir para eu as recolher e te oferecer

Ele sabe o que eu sinto por ti
Ele sabe que só a ti ofereço as suas formas e cores
Ele sabe que comigo é feliz porque o uso apenas
Para te provar o que sinto por ti

O vento é meu amigo
O vento é meu cúmplice
Quando ele parte, eu parto com ele
Quando ele chega, eu chego com ele
Quando ele fala eu ouço
Quando eu falo ele entende

Sei e não sei

Porque se sofre duas vezes?
Porque se tem de sofrer?
Se o amor é bom, porque sofremos por ele?
Se o amor é partilha porque fico só?
Se a vida é justa, porque não me faz justiça?
Se a vida é boa, porque não me dá um pouco da sua bondade?

Sou eu que estou mal?
Sou eu que só sirvo para sofrer?
Sou eu que não sei partilhar?
Sou eu que não sei viver?

Sinto-me esmagado por um sentimento mal sentido
Por um desejo mal desejado
Por um amor mal amado

Sinto-me bem e mal ao mesmo tempo
Sinto que já não me sopra o vento
Sinto cansaço mas não me sento
Sinto vontade deste momento
Sinto por sentir
Sentir o que sinto
Sei que não minto
Sei e não sei
E a nada me dei

Partir e chegar

Trilhei todas as curvas do teu corpo
Mas não encontrei o que queria
Escutei todas as palavras que falaste
Mas não esqueci o que sabia

Arrasei comigo mágoas imensas
Mas não sofri o suficiente
Dei ouvidos a tudo quanto dizias
Mas não lancei a semente

E agora vagueio no teu corpo à solta
Como quem percorre as ruas desertas
Que a madrugada deixou famintas

E agora soletro todas as letras
Todas sem esquecer alguma
Todas sem as repetir
Todas sem nada sentir
Todas e nenhuma

Há um tom e um verso
Um poema disperso
Há um ir e voltar
Um partir e chegar

Esquecer

Agrada-me a ideia de saber que ainda te lembras de mim
Agrada-me saber que não estou no baú das velhas recordações
Agrada-me recordar todos e cada um dos momentos que passámos juntos
Agrada-me pensar que não fui apenas uma coisa passageira na tua vida

Sinto que não fui o melhor nem o pior
Sinto que podia dar mais e pedir em troca
Sinto que o tempo não foi o nosso melhor amigo
Sinto que já não sinto aquilo que sentia

Fazes-me falta, é certo
Tenho dificuldade em esconder
Na verdade é impossível esconder
Porque nada se esconde
Quando realmente existe
Quando realmente é forte
Quando realmente é sincero

E agora, que fazer?
Esquecer?
Fazer de contas que não sei?
Fazer de contas que não te conheci?
Fazer de contas que não me interessa?

Esquecer. Apenas isso. Esquecer.

Apenas ternura

Amargas são as noites que passo sem dormir
Onde volto e revolto e não te acho
Onde as cores e os brilhos do escuro
São apenas isso: cores e brilhos

E volto e revolto
Levanto e deito
Solto no leito
Corpo já solto

Não sabes nem nunca vais saber o que é isso
Não entendes a minha amargura nem o meu sentir
Fazes de conta que não te importas com o que sinto

Talvez te minta
Talvez de abrace
Talvez de faça sentir pena

Abro a janela mas só vejo a madrugada lá fora
Abro a mão mas nenhuma estrela cai dentro dela
Abro o coração para que ele respire o ar fresco da rua

Porque deixo que isto chegue a este ponto?
Será vontade ou sentimento?
Será coragem?
Amargura?
Apenas ternura.

As minhas palavras

As minhas palavras estão preenchidas de mágoas
As mesmas que tenho para te mostrar
Talvez depois entendas
Que as flores quando nascem não são livres
Talvez depois entendas
Que o sol não brilha sempre da mesma maneira
Sempre com a mesma intensidade
E nessa nascente de ternura
Onde tudo é mais
Onde tudo é menos
Onde faço de mim o homem que sou
Onde fazes de ti a mulher que és

Dá-me graça

Dá-me graça quando dizes que não sentes saudades
Do som do vento a assobiar na montanha

Dá-me graça quando dizes que não sentes saudades
Da sombra em quem descobri as formas do teu corpo

Dá-me graça quando dizes que não sentes saudades
Do cheiro das flores silvestres a exalar odores afrodisíacos

Dá-me graça quando dizes que não sentes saudades
Da brisa fresca que te tocava no rosto suado de prazer

Dá-me graça quando dizes que não sentes saudades
Do recuperar de fôlego ao som dos chilrear dos pássaros

Dá-me graça quando dizes que não sentes saudades
De mim e de ti, os dois, transformados num só.

Roubei-te um beijo

Roubei-te um beijo
Se não o roubasse
Não mo davas
Por isso roubei
E passei a ser larápio
Coisa que nunca tinha sido
Porque se não me tivesse tornado
Teria de me contentar sem o teu beijo
Por isso não me arrependo do meu crime
Por isso não me arrependo do que fiz
Fiz porque isso me fez feliz
E até os larápios têm direito a ser felizes
Até os larápios merecem um beijo
Por isso roubei-te um beijo

Mulher amada

Abro a porta e deixo-te entrar
Não vens sozinha. Trazes contigo a madrugada
À porta fica o medo
Cá dentro a vontade
Dás-me as mãos e sentes o frio das minhas
Trazes contigo o calor dos sonhos que nunca acabam
As vontades esquecidas
As ilusões desaparecidas.
Trazes tudo e não trazes nada
Vens apenas tu
Completa
Reservada
Mulher amada

Coisas que não se explicam

Sinto nas palavras que me dizes
Que têm a força das raízes
Num amor que quer nascer
Que não tem nada a perder

Faço desta dúvida a certeza
Os meus segredos sobre a mesa
Nas coisas que não se explicam
Ou nos momentos que não ficam

Tento compreender o teu mundo
Mesmo que hesite um segundo
Porque nada mais me prende
É nas palavras que se entende

Que quero contigo partilhar
Uma vida toda a caminhar
Num destino mais concreto
Num desejo mais secreto

Sinto-me assim

Sinto-me esmagado pela desilusão
Vejo-me atado à decepção e ao medo
Estou fechado para a vontade de ser Feliz
Sinto um amargo de boca por não conseguir reagir
Faço de contas que não me importo
Que não me incomoda
Que é apenas uma fase
Sinto-me amarrado aos preconceitos
Ao que se vai falar
Ao que se vai pensar
Sinto-me preso nas grilhetas do senso comum
E abafo a minha dor e o meu sofrimento
Com silêncios demorados
Daqueles que perturbam os outros
Os que estão à minha volta
E se preocupam comigo
Tenho quase tudo
E ao mesmo tempo não tenho quase nada
Sou uma espécie de copo meio cheio e meio vazio
Acredito em pouca coisa
E pouca coisa me faz acreditar
Quero saber como isto vai acabar

Sinto

Sinto-me apertado nesta condição de indigente do sonho
Sem acreditar no que vejo, pergunto onde estão as cores da terra
As cores do passado desenhado a sépia
Ou os sons do vento quando cruza a floresta

Ergo a voz para gritar pelas aves que não voltam
Que deixaram esta terra de folhas caídas
Jamais imaginei que elas soubessem que a vida é mesmo assim
Que numa vez vai e noutra não regressa

Agora só me resta esperar pelo tempo novo
Aquele que me faz abrir os olhos ao brilho das fontes
Que me surpreende a cada momento mesmo quando não chega
Mesmo quando não sabe se quer ir embora

Algumas vezes

Algumas vezes imagino que domino todas as variáveis
Todas as forças do universo
As correntes fortes dos mares
A bravura dos tufões
E tudo o mais que se mexe à minha volta

Algumas vezes acho que nada vai me fazer parar
Acredito nesta força imensa que me consome
O corpo e a alma que não me deixam dormir
O fogo que dilacera as minhas memórias
Sentindo o tudo e o nada

Algumas vezes penso que posso mudar o caminho das estrelas
Impedir que os cometas se lancem uns contra os outros
Ou que o sol arrefeça e aqueça apenas porque tenho vontade
Mesmo que uma barreira invisível me tente travar
E quero que seja assim

Algumas vezes imagino o mar a vazar-se de uma só vez
E a desaparecer num buraco do tamanho do nada
Do tamanho da vontade dos homens de bem
E dos que não sabem o que isso é
Nem nunca quiseram saber

Algumas vezes sinto que afinal:
Existo
Respiro
Sonho
Penso
Esqueço
Chego e parto

Mãe

Mãe
Em ti derramei a primeira lágrima
e soltei o primeiro choro
Nos teus braços recebi o conforto
e o carinho dos primeiros minutos
Dos teus lábios recebi o primeiro beijo a saber a ternura
E o amor que me vai acompanhar até todo o sempre,
também foi nesse dia que recebi de ti

Mãe
Quanta coragem tiveste de ter para me ter
Quanta ansiedade passas-te nos minutos de dor
Quantas lágrimas de alegria deixaste cair
Porque me tinhas ali. Eu, o primeiro
A justa e arrojada semente que germinou
E caiu nos teus braços
Onde me aconchegaste e guardaste

Mãe
Sei que tendo-te a ti, tenho tudo
Porque tu és mais do que eu
Mais do que aquilo que tenho sem merecer
E o muito que tenho para dar
Foi de ti que recebi.
E contigo aprendi a dizer o que digo
O que sinto e transmito

Mãe
Sinto-me castigado pelo tempo
que não passo junto de ti, o tempo
que ninguém vai querer devolver-me
quando já não estivermos juntos aqui
mesmo que acredites que jamais nos vamos separar
eu sei que um dia, vou sentir
que o melhor de ti, é seres minha Mãe

Coisa nenhuma

Há dias em que não me encontro
Em que fico isolado do mundo
Como se isso fosse possível
Desmancho a solidão e volto a ela
Só porque isso me dá gozo
E sinto que ninguém repara
Entro nas salas repletas de gente
Mas ninguém me vê
Ninguém me fala
Ninguém me espera
E fico ali
A olhar como o mundo gira à minha volta
Como se eu fosse o centro do tudo e do nada
E é naquele breve espaço em que me encontro
Em que sinto não ter importância o que digo e o que faço
Porque os outros são também eles o centro de qualquer coisa
O centro de coisa nenhuma

E agora?

E agora que faço?
Quando os olhos me ardem de saudade
As mãos transpiram de feitiço
E as pernas tremem de vontade

E agora que digo?
Quando não sei mais o que dizer
Se fica bem ou mal este medo
De querer ganhar e não perder

E agora que escrevo?
Se as linhas do pensamento turvam
A minha memória e o meu querer
Só porque os sonhos não mudam

A Voz e o Vento

Abri a janela para que pudesse entrar
Invadiu cada canto da casa
Sem pedir licença
Entrou porque quis
Porque a janela estava aberta
E depois já não quis sair
Apenas quis ficar
E disse-me baixinho:
- Sou a voz do vento, deixa-me ficar.
E eu não lhe disse que não
Quem sou eu para dizer ao vento que a sua voz não pode ficar?
Deixa-te ficar. Faz-me companhia.